A mensagem escondida em “Bird Box” por Ana Basto

Sei quando um filme tem algo para mim, quando me deixa com uma sensação de inquietação e insatisfação. Estas sensações surgem de diversas formas, às vezes são imediatas e outras vezes surgem nos dias seguintes através de imagens que aparecem na minha mente…. É o que me tem acontecido.


Assim que terminei de ver Bird Box, as opiniões na sala onde estava dividiam-se. Fomos imediatamente procurar possíveis interpretações e o interessante foi ver que na primeira pesquisa, as pessoas falavam do género e estilo, mas não abordavam a interpretação. Parámos um pouco. Mas afinal qual é a mensagem do filme?

A história retrata uma população que se vê obrigada a esconder de uma qualquer “entidade” que induz as pessoas ao suicídio, após contacto visual.

A personagem principal, protagonizada por Sandra Bullock, é uma grávida que vive isolada e que mantém os seus sentidos ocupados pela música, e pela arte dos seus quadros onde espelha o seu estado interior. A sua grande missão será levar os dois filhos até um lugar seguro onde possam sobreviver. Trata-se de uma viagem de barco pelos rápidos, perigosa para qualquer um, mas mais ainda para quem a percorre de olhos vendados, numa derradeira tentativa de não ver aquilo que, inevitavelmente, os conduz à morte. A história decorre em 5 anos e é possível aceder-lhe em flashbacks, o tempo necessário para que os filhos nasçam, e cresçam o suficiente para percorrer, de olhos fechados, esta viagem alucinante.

O filme está repleto de mensagens subliminares, e este é para mim o seu encanto. Escrito por camadas, oferecendo pistas sobre o que está ao nosso alcance todos os dias. Para mim, este filme fala de emoções e de saúde mental.

A mensagem escondida em "Bird Box" por Ana Basto

Sandra Bullock – Bird Box (2018)

A cada dia que passa, as pessoas vivem mais viradas para “fora”, aparentemente muito ocupadas, mas incapazes de olhar para dentro de si e lidar com as suas próprias sombras e medos. A personagem principal, Melorie, demonstra ter dificuldade em lidar com as suas emoções, rejeita a gravidez e parece determinada a “cortar relações” com o resto do mundo, mas não deixa de esboçar na tela a sua frustração sobre a falta de conexão existente entre os humanos.  Logo no início a irmã, olhando para o seu quadro, diz-lhe que ela devia preocupar-se mais com a solidão, pois via o rosto da solidão em cada uma das suas personagens. Pouco depois a irmã suicida-se.

As sombras que vagueiam lá fora são uma espécie de “fantasmas de si mesmo” que, pelo facto de vivermos “tão robóticos” deixamos de ter a habilidade de contactar com as emoções e por sua vez, de nos conectar ao nosso Eu Essencial.

A par da falta de treino em lidar com as emoções, e ao contactar de forma abrupta com os nossos “monstros interiores”, torna-se imperativo terminar com o sofrimento, culminando no suicídio. Não muito distante da realidade que se vive. Quantas vezes abrimos as páginas do jornal e lemos sobre este flagelo? O suicídio anda na ordem do dia, a par e passo com uma sociedade feita de pessoas contagiadas por uma epidemia dos tempos modernos, que as distancia da sua essência, da Natureza. Sobrevive-se “ocupado” e ansioso e acima de tudo, cada vez mais sozinho no meio da multidão.

A mensagem escondida em "Bird Box" por Ana Basto

Sandra Bullock e Sarah Paulson – Bird Box (2018)

Curiosamente, no filme, os psicopatas andam à solta, mas sem vendas e nem por isso “são contagiados”. Eles conseguem ver a “entidade” e não se sentem impelidos a matar-se. Pelo contrário, estes tornam-se uma severa ameaça aos demais pois querem, a toda a força, que estes vejam o que eles veem, forçando-os a tirar a venda. Este pormenor está deliciosamente bem pensado: os psicopatas, de facto, não são capazes de fazer o reconhecimento das emoções. Estas pessoas apresentam uma atividade cerebral reduzida nas estruturas relacionada com as emoções e maior atividade nas regiões da cognição. Como efeito, eles não se debatem na lutam com os seus “demónios interiores”, aliás, eles nem se debatem com a culpa e apenas se preocupam com o seu bem-estar, retirando prazer na dor alheia e orgulho dos seus feitos. O que está, no meu ponto de vista, bem identificado no filme.

Apesar de me fazer sentido que a tal “entidade” seja um reflexo das nossas sombras, o facto de parecer que a população sofre de uma psicose coletiva não deixa de ser extremamente interessante. É igualmente importante que se aponte a luz para este tema tão relevante e tantas vezes negligenciado – as perturbações mentais.

A venda tem uma simbologia fortíssima, lembra-me um exercício de PNL, onde é sugerido a um aluno que possa passar um dia inteiro de olhos vendados, fazendo tudo que habitualmente faria, mas sem ajuda. Estar 8h em sala de aula, escrever, ir à casa de banho, andar na rua, etc. Colocar a venda obriga a fechar os olhos de fora e abrir os olhos de dentro, descobrindo novos caminhos.

A mensagem escondida em "Bird Box" por Ana Basto

Sandra Bullock – Bird Box (2018)

Os pássaros, que estão presente ao longo de toda a narrativa, também representam uma forte componente simbólica, por um lado simbolizam a liberdade, por outro, o facto deles se manifestarem perante a “entidade” é quase como se fosse aquele sininho interno, aquela intuição da qual todos somos dotados mas que quase nunca damos atenção pois, não confiamos o suficiente em nós. Falamos então de estar em perfeito equilíbrio connosco, com a Natureza, como parte integrante. No fim de contas, todo o filme retrata um regresso às origens, a necessidade de nos conectarmos com o Self para estar em comunhão com o Todo.

Ao logo da sua jornada, Melorie perde os amigos e até o namorado, fica completamente sozinha com duas crianças a quem insiste não dar nome. Ao atribuirmos nome a algo estamos a dar identidade, a personificar e personificar significa criar laços. A resistência em atribuir nomes representa a sua resistência ao processo de mudança. Não somos todos resistentes à mudança?

Uma das crianças é o seu filho legítimo e a outra é filha de uma amiga a quem prometeu cuidar.

A mensagem escondida em "Bird Box" por Ana Basto

Sandra Bullock, Julian Edwards, e Vivien Lyra Blair – Bird Box (2018)

Quando Melorie rejeita a gravidez é como se ela se rejeitasse a si própria, a transformação que ocorre dentro de si. A maior parte das vezes desejamos a mudança na nossa vida, mas andamos numa espécie de espiral. Para mudar, primeiro é necessário aceitarmo-nos e a ferramenta para isso, a meu ver, é o amor incondicional.

A viagem pelos rápidos representa a nossa caminhada na Vida, que não pode ser feita por mais ninguém a não ser por nós mesmos, vamos nela sozinhos. As crianças são uma exteriorização do seu Eu: o menino, carne da sua carne, representa a sua ligação visceral ao Ego e a menina, filha de outro ventre, representa o que está para além de si, a sua ligação ao Todo. Durante a viagem, Melorie deve sacrificar uma das crianças, porém ela decide não sacrificar nenhuma, como naquele momento da vida em que descobrimos o verdadeiro significado da existência – “não preciso de sacrificar nada em mim, sou perfeita como sou.” Para além disto, parece-me que não é aleatória a escolha dos filhos formar um casal, no meio de todo aquele ambiente há uma esperança latente – remete-me para a continuidade da espécie.

Ao longo do filme vemos as crianças indefesas, expostas a perigos, impedidas de ver para se defenderem, porém, aquelas crianças só conhecem o mundo desta forma. Parece triste, e é para os que conheceram o mundo de antigamente, mas elas que começaram por ver para dentro, saberão outra forma de viver e poderão ensinar-nos mais sobre isso.

Quando finalmente chegam ao abrigo, a protagonista pede que deixem entrar pelo menos as crianças, aqui ela está reconciliada consigo, o amor venceu. É como se dissesse: “Salvem o que há para além de mim, e eu serei salva”.

O lugar seguro é um lar para invisuais, correspondendo às expectativas, estas pessoas não foram contaminadas já que naturalmente estão impedidas de ver.
É um lugar bonito, harmonioso e cheio de pássaros. Tratam-se de pessoas que tiveram de desenvolver a sua acuidade sensorial – lembra-se do sininho de que lhe falei há pouco?

Neste local fechado existem adultos e crianças cegas, com as quais ela e os seus filhos poderão crescer e aprender. Sublinho, o abrigo é um lugar fechado, depois da tomada de consciência, é hora de juntos aprenderem uma nova forma de libertação.

A mensagem escondida em "Bird Box" por Ana Basto

Sandra Bullock – Bird Box (2018)

Por fim, a componente simbólica é, por si só, um convite ao espectador para ver com os olhos de dentro. Todo o filme é envolvido em suspense e num ambiente pós-apocalíptico, cenário que remete para uma constante sensação de angústia e apreensão, tal como as pessoas têm vivido na atualidade. Contudo, tem também sempre presente o elemento Natureza, por exemplo, só os humanos foram afetados, a ligação de Melorie aos cavalos, os pássaros, a água do rio, a floresta até chegar ao abrigo… Uma mensagem simples e tão urgente: precisamos de ir de encontro às origens, de nos reconciliarmos com a Natureza da qual fazemos parte, deixar de viver alheados para vivermos mais conscientes uma vida plena.

Fotos: IMDB

Sobre o autor

Dra. Ana Basto

Dra. Ana Basto
Directora Executiva Clinica Dra. Rosa Basto
Hipnoterapeuta pelo método Terapia Diamante®
Formadora em Storytelling
Licenciada em Gestão e Administração de Marketing


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