Como informar as crianças sobre a morte?

Costumo dizer que o adulto é a criança de ontem, logo cabe-nos educar a criança para uma relação natural com a morte e com a vida para que esta possa crescer um adulto saudável.


Segundo a psicóloga Susana Moutinho – responsável pelas consultas de luto do Serviço de Cuidados Paliativos do IPO – Porto – «a melhor forma de falar com a criança sobre a morte é sempre com verdade, honestidade e com uma linguagem clara que ela entenda apropriada à sua idade. Deve-se explicar que a morte é um processo natural e que faz parte da vida de todos os seres vivos: pessoas, animais, plantas, dando sempre espaço à criança para colocar as suas questões. Um comportamento muito comum emitido pelos familiares é tentar poupar as crianças da morte ou do conceito de morte achando que são muito pequenas para entender, recorrendo ao uso de mentiras para tal explicação, como por exemplo, «a mana foi dormir e nunca mais vai acordar». Este tipo de afirmação, segundo a psicóloga, «gera uma relação morte-sono que poderá ser assustadora e trazer medos da noite, do escuro, de dormir, etc. Entre muitos outros exemplos que apenas propiciam a confusão por parte da criança».

Essa atitude corrobora a dificuldade que os próprios adultos têm em lidar com a morte. É de todo importante não esquecer que, em determinadas idades, a criança faz uma interpretação literal da linguagem. Assim, a melhor forma é contar a verdade, permitir que a criança participe na cerimónia fúnebre e manter-se atento ao seu comportamento nos dias que se seguem. De resto, existem ferramentas que o podem ajudar a apoiar a criança, a fazer as suas próprias conclusões depois de lhe explicar com clareza o que acima foi referido, recorrendo, por exemplo, ao uso de histórias ou assistir a um filme como o ‘Bambi’ ou o ‘Rei Leão’, que de forma metafórica e pedagógica abordam estas temáticas.


Luto patológico

Estado mental associado à perda de pessoas significativas e decorrente da interrupção do processo normal do luto, tornando crónica a sensação de perda e de todos os seus acompanhamentos. (Centro de Medicina Psicossomática e Psicologia Médica Hospital Geral da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro).


Quatro fases do luto
(Por Bowlby, 1980; Gorrer, 1965 & Parkes, 1986; cit in Pereira & Lopes, 2005)

  • Fase de Entorpecimento: período em que a pessoa se poderá sentir como se estivesse desligada da realidade. Nesta fase assiste-se a uma negação da perda.
  • Fase de Anseio e Protesto: período de emoções fortes, sofrimento psicológico e agitação física. Frequentemente assiste-se à manifestação de sentimentos de raiva dirigidos tanto a si próprio como a pessoas significativas;
  • Fase de Desespero: fase igualmente complexa que surge frequentemente associada a momentos de apatia e depressão.
  • Fase da Recuperação e Restituição: emerge uma nova identidade que permite ao indivíduo adaptar-se ao significado que essa perda tem na sua vida. Verifica-se o retorno da independência e da iniciativa. Nesta fase poderá haver necessidade de investimentos em novas amizades e o reatar de laços antigos.

A importância dos rituais fúnebres na nossa cultura

Actualmente, as manifestações lutuosas são mais sóbrias e o luto é tão silenciosamente encarado que parece até estar escondido por um ‘véu’ de vergonha. Como refere Osswald, estas atitudes não são sadias e prejudicam o processo de luto. Uma vez que este é o momento onde é socialmente aceite a dor pela perda e afigura-se como o momento ideal para a catarse – termo frequentemente utilizado para designar o estado de libertação psíquica que o ser humano vivencia quando consegue superar algum trauma.

A cerimónia funerária ajuda-nos a consciencializar a respeito da perda, uma vez que antes do funeral é muito comum as pessoas enlutadas referirem que ainda não acreditam no desfecho que se sucedeu. Embora tido, pela educação que obtivemos, como um momento (para alguns) mórbido, é no funeral que partilhamos com os que nos são queridos a dor que sentimos, e é o local onde recebemos afectos e mensagens de encorajamento para a nova etapa que se avizinha. Por isso, é muito importante estar presente nestas cerimónias quando se trata do falecimento de alguém próximo a um amigo ou conhecido, pois nesta altura a pessoa enlutada sente-se, geralmente, desamparada.

É também através do funeral que podemos homenagear publicamente a pessoa falecida e até relembrar momentos e recordações vividas pelo falecido, o que se revela verdadeiramente significativo na expressão de sentimentos e libertação de emoções. Outro factor a ter em consideração é o próprio sepultamento que para algumas pessoas enlutadas gera segurança e conforto: a existência de um corpo para enterrar e de um lugar para visitar fazendo daquele local uma âncora geográfica, ou seja, o lugar onde fica mentalmente estabelecido como o lugar apropriado para chorar e relembrar o falecido. Não obstante, outra prática menos vulgarizada, é a cremação, que da mesma forma pode gerar conforto aos enlutados, dependendo das crenças ou forma de vida da pessoa que faleceu.

A terapia pode ajudar no processo de luto?

Numa perspectiva psicanalista, o luto normal geralmente reforça o organismo. Em termos cognitivos a pessoa que trabalhou o luto esgota o sofrimento que ele continha, ao fazê-lo cresce e dispõe de uma maior flexibilidade e novos recursos adaptados às situações que terá de enfrentar. É nesta linha de pensamento que a hipnoterapia se apresenta como uma ferramenta que tem demonstrado um elevado índice de sucesso no processo terapêutico no trabalho de luto, já que a sua preocupação maior é ‘ir à origem do problema’, ajudando o paciente a modificar a sua percepção do evento responsável pelo trauma, atribuindo um novo significado ao acontecimento, pois em transe o paciente acede a uma ‘posição mais elevada’ e nessa perspectiva pode perceber o seu trauma sobre outro ponto de vista. (Lopes, 2011) O uso da hipnose neste âmbito manifesta-se como uma excelente técnica de libertação e desapego, ao permitir colmatar o vazio existencial da perda e do luto, através de uma técnica chamada Despedida Espiritual, onde o paciente, através do processo de visualização guiada, evoca a simples imagem da pessoa querida e num diálogo interior pode desejar-lhe paz e amor, dizer tudo o que não foi dito e perdoar o que não foi perdoado para finalmente criar as condições ideais para trabalhar a dor da perda.

O desenvolvimento intelectual da criança
(Por Piaget (1964) citado por Bromberg – 2000)

(0 – 2 anos) Sensório-motor – não há um conceito formado sobre morte.
(2 – 7 anos) Pré-operacional – a morte é reversível.
(7 – 11 anos) Operacional concreto – a morte é irreversível, com explicações fisiológicas.
(A partir dos 11/12 anos) operacional formal – a morte é irreversível, universal, pessoal, mas distante; as explicações são de ordem natural, fisiológica e teológica.

NOTA: As idades cronológicas, durante as quais se espera que as crianças desenvolvam comportamentos representativos de um dado estágio, não são fixas. Elas podem variar de acordo com a experiência individual e o potencial hereditário.

Sobre o autor

Dra. Ana Basto

Dra. Ana Basto
Licenciada em Gestão e Administração de Marketing
Life coach pelo método Terapia Diamante®
Formadora em Storytelling


Comentários

Share this post