“Hair Love”: a mensagem poderosa da aceitação

Hoje quando acordei e me olhei ao espelho fiquei de sorriso na cara, na noite anterior experimentei um champô novo e acordei com o cabelo com aquele look selvagem, selvagem para dizer que ficou com umas ondas espetaculares sem lhe fazer nada! Quem tem cabelo com vida e atitude própria sabe do que estou a falar!


É incrível a importância que damos ao cabelo, às vezes considero que se supervaloriza, afinal é só cabelo mas a verdade é que se trata de uma espécie de moldura do rosto. Para as mulheres muitas vezes representa a sua feminilidade e para muitos homens uma crise de identidade quando começam a ficar carecas. Por isso vemos tantas cabeças ao estilo “Frei João” – cabelo em volta de uma nuca careca ao centro – e está certo. Claro que está certo, tudo está certo. De certa forma é como se estivessem a tentar manter-se conectados com o quem conhecem de si, com a sua identidade. E identidade meu caro leitor, é um assunto sério.

Em 2017 estreava pela primeira vez numa plataforma de crowdfunding a curta realizada por  Matthew A. Cherry. Conta a história de uma menina afro-americana que acorda eufórica para um encontro muito especial, quer ir sentindo-se uma princesa e entre a roupa escolhida a rigor e o entusiasmo que lhe dá energia, está o desejo pelo penteado ideal que perante uma vasta cabeleira de difíceis contornos, tenta seguir um tutorial feito pela mãe e recorda-se dela… Como não consegue reproduzir o penteado, conta com a ajuda do pai, um homem jovem de rastas.

"Hair Love": a mensagem poderosa da aceitação

Sony Pictures Animation

As peripécias acontecem quando este tenta pentear a filha debatendo-se com um adversário indomável que é o cabelo da menina. Finalmente conseguem o tão desejado penteado e vão juntos ao hospital buscar a mãe que está de volta a casa depois de ter vencido um cancro. A história arrebatou corações, e acabou mesmo por ganhar a estatueta 2 anos depois, na passada madrugada de segunda-feira, 10 de Fevereiro.

A assistir na plateia esteve um adolescente norte-americano – DeAndre Arnold – que foi suspenso da escola secundária que frequenta por ter rastas “demasiado longas” e ainda foi advertido que se não cortasse o cabelo, não poderia entrar na cerimónia de graduação do secundário. Ele foi o convidado especial dos produtores. No discurso de aceitação do óscar, Matthew diz que esta curta “nasceu de querer ver mais representação na animação” e também “de querer normalizar o cabelo das pessoas negras”. Mas a meu ver, esta história conta mais do que isso, as histórias, as boas histórias têm esse poder, criam empatia e quebram fronteiras.

A meu ver esta história fala de liberdade para se Ser, de novos formatos familiares, de laços e acima de tudo de amor. Está nela representado como símbolo o cabelo, que é característica das pessoas negras, mas podia ser um bigode português na Suíça de um lusodescendente, podia ser um turbante, um corpo tatuado, um Xaile às costas, uma roupa gótica, um cabelo laranja ou qualquer outro objeto/símbolo, que remeta a quem o usa para a sua identidade, tantas vezes assente nas origens. Já imaginou se proibissem todos os bigodes farfalhudos que andam por aí? E bem-haja para quem sabe quem é e se orgulha das suas origens!

"Hair Love": a mensagem poderosa da aceitação

Matthew A Cherry – Illustrated By Vashti Harrison

O Pai na história remeteu-me para um DeAndre da vida adulta com família e vicissitudes. A cena  do pai perante o cabelo da filha está repleta de deliciosos pormenores. Primeiro ele tenta atalhos, um gorro parece-lhe a solução ideal mas, perante o descontentamento de Zuri, não desiste e avança para uma verdadeira luta com o monstro cabeludo onde sai vencido. Então, a filha mostra-lhe o tutorial feito pela mãe e eis que se abrem mais umas quantas janelas de reflexão: quantos de nós páramos para escutar, brincar e aprender com os filhos? Quantos de nós entra com verdadeiro interesse de conhecer o mundo do seu parceiro?

Não fomos ensinados a ver um pai a cuidar duma criança, causa uma certa estranheza. Mas essa é também mais uma barreira que esta história quebra, a relação do pai com a menina leva-nos para um universo novo na animação, mas repleto de amor e acima de tudo realista.

O derradeiro momento é o do encontro com a mãe no hospital que aceita tirar o lenço que esconde a cabeça rapada quando vê o desenho da filha onde tem uma coroa no lugar dele. Aqui tudo faz sentido, o cabelo deixa de ser só cabelo e ganha uma dimensão maior. No final, pai e filha levando juntos a mãe para casa, festejam pelo “trabalho superado” num cumprimento de mãos típico de amigos, e assim fortificaram laços. Com eles vibramos, empatizamos e emocionamo-nos, quer pela superação da doença que não escolhe etnias, quer pela família junta outra vez. Afinal de contas, somos humanos e todos desejamos ser amados e poder amar as nossas famílias aconteça o que acontecer, sejam elas como forem.

Aqui tudo faz sentido, o cabelo deixa de ser só cabelo e ganha uma dimensão maior.

Se ainda não assistiu a “Hair Love”, veja aqui e conte-nos o que achou.

Fotos: Matthew A. Cherry

Dra. Ana Basto

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