Luto na pandemia: como reconstruir a nossa vida face à perda?

Lidar com a perda de alguém significativo é das experiências mais difíceis e dolorosas que podemos vivenciar. Experienciar o luto, em paralelo com as implicações de uma pandemia mundial, que surgiu no nosso mundo de forma súbita e inesperada, adquire contornos singulares e relevantes, podendo refletir-se negativamente no processo de adaptação à perda. Antes de abordarmos a temática central deste artigo, é importante conhecermos um pouco o conceito de luto.


O luto faz parte do ciclo de vida de quase todos os seres humanos. Pode ocorrer em qualquer altura do percurso desenvolvimental atingindo crianças, jovens, adultos e idosos. Corresponde a uma reação a uma perda significativa, é um processo natural e singular para cada um de nós, com uma dimensão adaptativa. Permite-nos a construção de um significado, com o objetivo de integrar a perda na nossa história de vida, ou seja, vivenciar o luto possibilita-nos reconstruir e reorganizar a nossa própria vida face à perda, para que nos possamos situar novamente no mundo e encontrar um lugar nas nossas vidas para a nossa perda.

O luto vem acompanhado por um conjunto de emoções e sentimentos. Quando se está a passar por um luto é normal sentir:

  • Tristeza profunda;
  • Falta de energia;
  • Dificuldade para se concentrar;
  • Como se estivesse “anestesiado”
  • Ansiedade;
  • Como se quisesse “fugir”
  • Raiva;
  • Revolta;
  • Frustração;
  • Impotência;
  • Culpa e remorso por coisas que não disse ou não fez, entre outros sentimentos e emoções.

Estes sentimentos são protetores, protegem-nos temporariamente da realidade da perda, como se fossem “absorventes do choque psicológico”, até que estejamos prontos a tolerar o que não queremos acreditar.

Durante um processo de luto podemos passar por vários momentos e fases:

  • Negação da perda;
  • Choque;
  • Tristeza profunda;
  • Aceitação da perda.

Estas fases não são experienciadas de igual modo por todas as pessoas, não seguem necessariamente esta ordem e variam consoante o tipo de perda. Agora que já temos alguma informação sobre o luto, podemos concentrar-nos nas possíveis repercussões da pandemia neste processo.

Os sentimentos no luto

A morte por COVID-19 ou na sequência de complicações daí resultantes pode ser particularmente difícil para a família e amigos. A necessidade de se controlar a infeção pode implicar a ausência da família nas últimas horas de vida do ente querido e até impedi-la de se despedir formalmente, o pode dificultar ainda mais a aceitação da realidade do luto. O confronto com a morte súbita ou traumatizante, como é o caso da morte por COVID-19 pode fazer com que os sentimentos de raiva e da culpa, normais no processo de luto, surjam de forma mais acentuada, pelo sentimento de perda total de controlo, impotência ou abandono. Ou seja, a morte no contexto da pandemia, pode gerar mais motivos para sentir raiva, por exemplo, pode sentir-se raiva quando o familiar ou amigo não foi alvo dos cuidados que deveria, porque os hospitais estavam sobrecarregados e as equipas clínicas foram forçadas a tomar decisões difíceis. Pode sentir-se raiva das entidades oficiais, se existir a crença de que as mesmas deveriam ter tomado outras medidas de proteção e controlo. Ou ainda, porque houve pessoas que arriscaram e colocaram em risco os demais, facilitando o contágio.

O confronto com a morte súbita ou traumatizante, como é o caso da morte por COVID-19 pode fazer com que os sentimentos de raiva e da culpa, normais no processo de luto, surjam de forma mais acentuada, pelo sentimento de perda total de controlo, impotência ou abandono.

A morte por COVID-19 ou por circunstâncias agravadas pela situação de pandemia, pode também intensificar o sentimento de culpa. Pode sentir-se culpa por ter transmitido o vírus ao ente que faleceu ou pela incapacidade de o proteger. Pode também sentir-se culpa por não conseguir ter estado junto do familiar ou amigo doente para lhe transmitir o que se pensa e sente nos seus últimos dias, ainda que a sua responsabilidade por isto seja nula.

As mortes provocadas por COVID-19 introduziram ainda um novo tipo de tristeza, não apenas individual, mas comunitária. Um sofrimento que transcende a dimensão pessoal e familiar, a própria comunidade, todos nós, temos de lidar com o significado de uma morte decorrente da pandemia e com as suas consequências sociais. As mortes neste contexto, confrontam-nos com os nossos receios e incertezas, com preocupações com a saúde, a segurança, com a ideia da morte, fazendo-nos questionar o futuro.

O luto e a pandemia

Em situação pandémica, o processo de luto, perante uma morte provocada ou não por COVID-19 pode ser um caminho extremamente mais difícil, limitado por um conjunto de especificidades, particularmente, porque existiu um corte abrupto das práticas e rituais facilitadores deste processo que conhecíamos e, obrigatoriamente, tivemos que ajustar ou desenvolver novas práticas e rituais, adequados à condição que vivemos. Neste sentido, sublinha-se dois dos principais desafios que a pandemia veio colocar ao processo de luto: o isolamento e as limitações aos rituais fúnebres.

O isolamento

Quando se está de luto podemos naturalmente isolar-nos, principalmente pouco depois da perda, quando as redes e apoios sociais diminuem. Apesar de existir espaço e momento para todas as emoções e comportamentos, evitar o isolamento é uma das indicações fundamentais, habitualmente sugerida, em situações de luto, sendo o contacto social uma das principais fontes de suporte e apoio facilitadora do processo de luto. Contudo, numa situação excecional como a pandemia, em que o isolamento é recomendado, em que as advertências são no sentido de evitar ao máximo o contacto e as interações físicas, os sentimentos de solidão e tristeza presentes em quem está de luto, poderão tornar-se mais intensos e dolorosos.

O funeral

O funeral corresponde ao momento de despedida e é uma parte muito importante do processo de luto, dando resposta a uma série de propósitos relevantes no luto:

  • Possibilita uma despedida formal;
  • Reúne famílias e outras pessoas em luto que se apoiam mutuamente, tendo ainda uma função comunitária em que os presentes no funeral mostram apoio e solidariedade por uma perda que todos sentem;
  • Oferece a oportunidade de estabelecer ligações, de expressar emoções, partilhar pensamentos e sentimentos e de dividir a tristeza;
  • Quando a situação parece fora do controlo, o funeral representa um objetivo concreto, podendo ajudar a tornar a morte mais real.

Apesar de os funerais estarem autorizados, têm regras específicas, independentemente do motivo do falecimento, para evitar a disseminação de COVID-19, facto que interrompe os propósitos do funeral.

A impossibilidade de cumprir o ritual fúnebre de acordo com as práticas que conhecemos, pode dificultar o processo de luto, traduzindo-se num fator adicional de stresse, raiva e angústia para quem perdeu o ente querido, quer pela incapacidade de honrar os desejos do ente falecido ou por não ter familiares e amigos significativos presentes, limitando o apoio emocional. A proibição da abertura do caixão, para além dos restantes condicionalismos, é também uma circunstância que dificulta a despedida e pode tornar ainda mais difícil aceitar a realidade de um luto.

Viver uma crise como perder alguém querido, dentro de outra crise, a pandemia, pode ter um sério impacto na saúde psicológica e emocional, ampliando o risco de quadros de luto prolongado e luto complicado. Neste sentido, é imperativo tomarmos algumas medidas preventivas, no sentido de aliviar o sofrimento.

Como lidar com o luto

  • Faça o seu luto sem o adiar
    Por vezes, pode existir a tendência para nos envolvermos constantemente em atividades ou tarefas, numa tentativa de suprimir as emoções inerentes ao luto e não pensar no assunto. É importante que procuremos aceitar que o luto tem de ser vivido e que chorar, pode ajudar a exteriorizar o sofrimento acumulado, a “pôr tudo cá para fora”.
  • Evite isolar-se
    Mesmo que não apeteça, é importante quebrarmos a falta de vontade e que procuremos o apoio de familiares e amigos. O luto pode ser um processo difícil, vivenciá-lo com a ajuda de outros, pode facilitar o processo. Falar sobre o que sente não aumenta a tristeza, mas permite-nos dividi-la e ter o sentimento de estarmos acompanhados.
  • Respeite o seu tempo
    O sofrimento não passa de um dia para outro, o luto pode ser um processo longo de construção de uma nova realidade, com várias fases. É importante ter informação sobre estas fases e perceber o que se está a passar connosco.
  • Respeite as suas emoções
    Como referido anteriormente, o luto inclui diversos sentimentos: raiva, culpa, medo, impotência, ansiedade… Lutarmos contra os nossos sentimentos não nos vai ajudar a sentir melhor, é fundamental aceitarmos as nossas emoções e sentimentos, pois todos são legítimos numa situação de perda.
  • Procure ânimo
    É importante mantermos, tanto quanto possível, as nossas rotinas e atividades e não abdicarmos do que nos dá prazer. Pode ser difícil manter rotinas de sono, alimentação e exercício, mas pode melhorar a forma como pensamos e nos sentimos. Sorrir e realizar atividades que nos dão prazer não significa que esquecemos quem perdemos.
  • Valorize o autocuidado
    Quando se está de luto ou a apoiar alguém que está em luto, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de cuidar de nós mesmos, da nossa saúde física e emocional. Ter tempo para nos cuidarmos pode melhorar a nossa capacidade para reagir à situação.

Se considerar que os amigos e a família não podem fornecer o nível ou o tipo de apoio de que precisa, se o sofrimento é tão perturbador que impede o desenvolvimento de atividades da vida diária ou noutros casos, procure ajuda especializada. O acompanhamento psicológico ajuda a compreender melhor o luto, fornecendo informação e o apoio, num lugar seguro onde possa viver a sua dor inteira e naturalmente, facilitando o processo de seguir em frente e a encontrar um significado continuado na vida.

Como apoiar a pessoa em luto

É fundamental que nos lembremos que o distanciamento físico, não corresponde ao distanciamento social e emocional, podemos utilizar a tecnologia e as ferramentas online para contactar e prestar apoio à pessoa em luto:

  • Use o telefone para ligar e confortar a pessoa em luto;
  • Contribua para diminuir o sofrimento da família em luto com apoio prático (por exemplo, enviar uma refeição preparada);
  • Se a pessoa em luto quiser, permita-lhe que fale sobre como se sente e sobre a pessoa que morreu, esta partilha pode ser muito útil e construtiva na elaboração das emoções.
  • Afaste sentimentos de impotência, é normal não saber o que dizer, basta mostrar disponibilidade, ouvir, manter-se presente, oferecer apoio.
  • À medida que o tempo vai passando, algumas pessoas em luto experimentam a cessação de mensagens de apoio, portanto, tente manter-se emocionalmente próximo.

Quanto mais informação e mais conscientes estivermos da individualidade e intensidade dos processos de luto, maior a probabilidade de vivência dos mesmo de uma forma saudável, tendo sempre em consideração que a dor é inevitável, que o luto é doloroso, mas necessário para a reconstrução e reorganização da nossa vida após a perda.

Dra. Lara Azinheiro
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