O que nos torna diferentes das outras pessoas?

O que nos torna diferentes das outras pessoas, se todos, de forma geral, temos a mesma estrutura cerebral? É a nossa consciência ou o cérebro onde ela eventualmente habita?


Quando se fala em cérebro, surgem de imediato diversos (pré)conceitos. Associa-se a todas aquelas nomenclaturas técnicas e enfadonhas de difícil pronunciação. Mas, certamente, já ouviu dizer: «O cérebro é o hardware da alma». O que lhe proponho neste artigo é uma breve, mas vibrante viagem ao mundo fascinante que vive bem dentro de si – A sua Mente.

Na actividade profissional que desempenho, são-me colocadas com frequência as seguintes questões: «Em estado de transe vou ficar sem consciência?» ou «Irei recordar-me de alguma coisa feita na sessão?». É também muito comum ouvir por parte dos pacientes no final da sessão: «Estive sempre consciente de tudo». O que eu sempre explico é que em estado de transe hipnótico, relaxamos o corpo e acalmamos a mente com o objectivo da nossa atenção estar duplamente focada no nosso Eu mais profundo.

Acompanhe-me neste artigo e perceba de que forma estamos conscientes durante todo o processo e que isso é a mais valia do sucesso terapêutico. A prática de hipnose clínica só pode ser aplicada a seres com capacidade cognitiva e, por consequência, na boa relação de sinapses que ocorrem entre neurónios, potenciando conscientemente os processos de cura. A propósito, estudos recentes da Faculdade de Dartmouth, nos EUA, revelam que é uma rede de neurónios que é responsável pela imaginação. Esta última é, necessariamente, um pré-requisito para se dar o fenómeno hipnótico, que iremos abordar com mais detalhe à frente.

Ter consciência de algo

Mas, antes de tudo, acompanhe-me no seguinte raciocínio: para termos consciência de algo, primeiro é necessário ter algo para que sejamos conscientes disso, certo? Apesar de na actualidade não existir conhecimento nem concordância sobre como se forma a consciência nos nossos cérebros, a tecnologia actual já nos permite entrar no cérebro humano de uma pessoa ainda em vida e perceber quais as áreas que estão a ser activadas em diversos momentos e, podemos perceber que existe imensa actividade entre os hemisférios denominada por sinapses. Damásio – neurocientista português e entusiasta nesta temática, radicado nos EUA desde 1974 e professor na Universidade da Califórnia, refere-se à mente consciente com a seguinte metáfora: «É aquilo que perdemos quando caímos num sono profundo sem sonhos ou quando somos anestesiados de forma geral e é o que recuperamos quando acordamos do sono ou da anestesia geral».

…cada um de nós é dono da sua mente e tem a percepção de si mesmo enquanto ser individual – Mente Consciente

Mas, o que é exactamente isso que perdemos?

Seguindo os experimentos de Damásio, para perceber isso, primeiro é necessário compreender o conceito de mente e só então passar a ter consciência dela. Decerto, pode concordar e fará para si sentido que a informação chega-nos do exterior através dos nossos sentidos (visão, audição, olfacto, gosto e cinestesia –além do tacto), é recebida por neurónios, e percepcionada por regiões cerebrais que formam os mapas neuronais que, por sua vez, formam imagens sensoriais (imagem sensorial é um padrão mental dinâmico, não apenas visual, «com uma estrutura construída com sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais – visual, auditiva, olfativa, gustatória, e cinestésica») que dão origem a um fluxo denominado por MENTE. Segundo Damásio, «nós não somos apenas expositores passivos desses padrões sensoriais, ou seja, dessas imagens visuais auditivas e tácteis, nós temos o Self – Eu, que está automaticamente nas nossas mentes a todo o momento» e por isso cada um de nós é dono da sua mente e tem a percepção de si mesmo enquanto ser individual – Mente Consciente. E seguindo esta linha de raciocínio, O Eu é, em certa medida, uma representação de nós mesmos, construído com base em recordações passadas, tudo o que já vivemos e em recordações dos planos que fizemos; «é o passado vivido e o futuro antecipado.» (Damásio in TED, 2011)

O que nos torna diferentes das outras pessoas?

A memória…

E, se o leitor está a acompanhar-me é porque o fascínio por este tema que está neste preciso momento activo dentro de si já o deslumbrou e, então, achará incrível o que se segue: O mais admirável é que a partir da memória, podemos produzir de volta imagens sensoriais, precisamente nas mesmas regiões que têm a percepção. Como diz o autor já referenciado, «então pensem como maravilhosamente conveniente e preguiçoso o cérebro é. Portanto, capacita certas áreas para a percepção e para a formação de imagens. E elas são exactamente as mesmas que vão ser usadas para a formação de imagens quando recordamos informação». Ou seja, ao recordar informação é como fisicamente ela se repetisse. E é tão específico assim, pois existe uma ligação muito forte entre o cérebro e o corpo, ligação essa, feita através do tronco cerebral.

…ao recordar informação é como fisicamente ela se repetisse

… e a imaginação

«As imagens e os sentimentos são fantasmas, mas fantasmas que habitam o meu mundo subjetivo e o dos meus pacientes. Eles são nossos companheiros constantes e desejo explicá-los», (Priberam, sobre o imaginário). Para o Priberam, não é possível explicar adequadamente o comportamento ou a linguagem sem recorrer a um mapa, ou seja, a algum tipo de imagem. Neste seguimento, evidenciar que a imaginação é um instrumento de modificação do comportamento atesta ainda mais o seu uso interventivo e estratégico, pois é através dela que podemos criar novas imagens com base nas nossas memórias. A imaginação como instrumento para a cura é, portanto, reconhecida pelo modelo social e comportamental e explicada pela forma como cada um sente a sua realidade, sem que seja necessário recorrer aos níveis muitas vezes redutores da ciência ou a explicações sobrenaturais.

Achterberg refere na sua obra A imaginação na cura que «Os cientistas sociais e do comportamento preocupam-se enormemente com a enfermidade e não com a doença, com os factores subjectivos (ou psicológicos) e com a mudança de comportamento. Na literatura sobre o comportamento, a imaginação é frequentemente descrita como extremamente eficaz na cura de doenças imaginárias – usando formas de pensamento para combater formas de pensamento. Também é comum considerar a imaginação como parte integrante de um mecanismo incluído na configuração de enfermidade, a resposta à doença. Não é de surpreender que o trabalho comportamental com a imaginação focaliza primariamente as perturbações mentais.»

Sobre o autor

Dra. Ana Basto

Dra. Ana Basto
Directora Executiva Clinica Dra. Rosa Basto
Hipnoterapeuta pelo método Terapia Diamante®
Formadora em Storytelling e Contoterapia
Licenciada em Gestão e Administração de Marketing


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