Porque é que umas pessoas se sentem mais protegidas que outras?

A ansiedade acompanha-nos desde a infância? Porque é que sofremos de ansiedade, mesmo quando temos tudo o que, aparentemente, necessitamos, tal como um emprego estável, uma casa, um bom carro?


Na maioria das situações, existe um fator comum, que se traduz numa falta de segurança e estabilidade na infância, e esta instabilidade e insegurança, nada têm que ver com bens materiais, bem pelo contrário! Muitos dos, agora adultos ansiosos, assumem que nunca passaram por dificuldades ou privações em quanto crianças; os pais sempre lhes deram brinquedos, objetos, roupas, etc… O que existiu foi uma falta de afeto ou de uma rede de apoio que lhe transmitisse, enquanto criança, estabilidade, confiança e a tão desejada proteção.

Ainda hoje, assistimos a uma tentativa de compensação de falta de tempo e de afeto com bens materiais, contudo isto não significa que não haja amor dos pais para com os filhos.

A infância é absolutamente crucial para o desenvolvimento da criança e para o tipo de adulto no qual se irá tornar, principalmente por volta dos 5/7 anos. É nesta altura que as crianças ganham uma consciência do que as rodeia, e procuram as suas referências, sejam elas os pais, os irmãos, os avós. Ou seja, é nesta fase que a rede familiar tem um papel essencial na forma como a criança se vai desenvolver, e quais os modelos que irá absorver para o seu futuro. Por isso é tão importante que, nesta fase, a criança chegue a casa e sinta que aquele é o seu espaço, que tem as suas coisas e que a família é o seu ponto de estabilidade emocional.

Podemos pensar que é uma questão cultural ou geracional, uma vez que em gerações passadas, valorizavam-se outro tipo de comportamentos, porém não nos podemos esquecer que, mesmo noutros tempos, o Humano sempre valorizou o aconchego e o afeto.

O que, muitas vezes, pode estar por detrás desta falta de manifestações de carinho para com os mais novos, é um desconhecimento de como as fazer.

Muitos adultos lamentam o facto de que os seus pais não sabiam abraçar, não sabiam como os aconchegar, e a origem desta falta de atitudes está na história das suas vidas, e não na falta de amor pelos filhos. Pais que não sabem ou souberam transmitir segurança, à partida, foram filhos que não se sentiram seguros, que tiveram os seus pais perturbados que lhe passaram esta realidade de vida, e como não conhecem outra, irão repetir este ensinamento aos seus filhos, gerando-se um ciclo vicioso.

As pessoas agem de acordo com as suas referências, e se os modelos são pessoas muito medrosas, muito assustadas, com medo de agir, então, o mais provável é que entrem nesse ciclo, e a ansiedade vai disparar quando tiverem que se confrontar com alguma situação menos positiva na vida. Isto vai desencadear a frustração por não saber lidar com a vida, e muitas vezes, é daí que vem a depressão.

Quando falamos em dar afetos e segurança, não significa necessariamente que tenhamos que andar sempre a dar beijinhos e abraços, uma vez que existem vários comportamentos que vão complementar e gerar essa ligação.

  • É primordial que os casais evitem discutir à frente dos filhos e que transmitam uma harmonia familiar.
  • O excesso de liberdade é, muitas vezes, interpretado na cabeça dos filhos como um «não querer saber», e por isso é tão importante criar regras.
  • Proporcionar um espaço de partilha no qual os filhos sentir-se-ão à vontade para falar de qualquer assunto com os pais, já que sabem que vão ser escutados.
  • Um simples dar a mão tem um enorme contributo no bem-estar de uma criança, uma vez que gera ligação e confiança.

Claro que os bens materiais fazem parte da nossa vida, e é perfeitamente natural que queiramos dar o melhor às nossas crianças, porém é essencial que juntemos a estes um abraço, um beijinho, um segurar a mão.

Um «vai ficar tudo bem» apazigua a perturbação, cria segurança, gera ligação, e tem a capacidade de promover um futuro adulto sem ansiedade!

Dra. Rosa Basto

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