Estamos a construir relações ou apenas a gerir contactos?
Nos últimos vinte anos, as tecnologias digitais transformaram profundamente a forma como nos conhecemos, comunicamos e construímos relações. Aplicações de encontros, redes sociais e plataformas de comunicação instantânea criaram um “mercado relacional” global, no qual é possível encontrar parceiros e manter interações de forma quase imediata. Estas mudanças trazem consigo novas possibilidades de conexão, mas também desafios inéditos para a saúde mental.
Afinal, a facilidade de criar laços virtuais aproxima-nos ou, paradoxalmente, contribui para o isolamento emocional?
O conceito de “novas formas de relacionamento” engloba um vasto leque de configurações, incluindo relações exclusivamente virtuais, relacionamentos não monogâmicos consensuais (como o poliamor) e relações híbridas, que combinam encontros presenciais com interações digitais. Em Portugal, ainda que a investigação seja incipiente, dados internacionais revelam que cerca de 30% dos adultos nos EUA já utilizaram aplicações de encontros (Vogels & Anderson, 2020), e uma proporção crescente reporta conhecer o(a) parceiro(a) através destas plataformas.
As redes sociais e as apps de encontros funcionam como “aceleradores” da interação humana, permitindo múltiplos contactos num curto espaço de tempo. No entanto, este acesso ilimitado pode levar ao chamado paradoxo da escolha, quanto mais opções temos, maior pode ser a insatisfação e a indecisão (Schwartz, 2004).
…este acesso ilimitado pode levar ao chamado paradoxo da escolha, quanto mais opções temos, maior pode ser a insatisfação…
As novas formas de relacionamento apresentam um conjunto de potenciais benefícios e riscos psicológicos, que dependem fortemente da forma como são vividas.
Impactos Positivos:
- Aumento da possibilidade de encontrar pessoas com interesses, valores e estilos de vida compatíveis.
- Expansão das redes de apoio emocional, especialmente para pessoas geograficamente isoladas ou com dificuldades de socialização presencial.
- Maior liberdade em experiências de diferentes formatos de relacionamento.
Impactos Negativos:
- Solidão paradoxal: mesmo com mais contactos, pode surgir um sentimento de vazio ou de falta de intimidade real.
- Ansiedade relacional: incerteza sobre intenções e expectativas dos parceiros.
- Comparação social negativa: exposição constante a perfis idealizados que geram insegurança.
- Sobrecarga de opções: dificuldade em investir emocionalmente quando existem “possibilidades infinitas” à distância de um clique.
Estudos apontam que a utilização intensiva de plataformas de encontros e redes sociais está associada a maiores níveis de ansiedade social, insatisfação corporal e sintomas depressivos em alguns indivíduos (Döring & Poeschl, 2019; Shapiro et al., 2018).
A revolução digital na intimidade trouxe desafios que exigem novas respostas por parte da saúde mental:
- Dependência emocional e tecnológica – tendência para regular o humor através de interações virtuais, com perda de interesse na vida offline.
- Superficialidade das interações – redução da profundidade emocional nas relações, devido à facilidade de substituição de parceiros e ao “scroll infinito” de opções.
- Conflitos culturais e identitários – para quem adota modelos relacionais não tradicionais, a pressão social e o estigma podem gerar stress significativo.
- Exposição a riscos online – desde catfishing (falsificação de identidade) a extorsão e outras formas de abuso digital.
Para que estas novas formas de relacionamento sejam potenciadoras de bem-estar e não de sofrimento, é fundamental investir em competências socioemocionais e estratégias de autorregulação:
- Educação socioemocional desde a adolescência, para desenvolver literacia emocional e consciência sobre vínculos saudáveis.
- Competências comunicacionais adaptadas ao meio digital, como assertividade e clareza na definição de expectativas.
- Estabelecimento de limites saudáveis quanto ao tempo de ecrã e ao número de interações simultâneas.
- Apoio psicológico especializado para casais e indivíduos em transição para novos formatos relacionais.
- Promoção de encontros presenciais que reforcem o contacto humano e a intimidade física, diminuindo a dependência exclusiva do digital.
Com tudo isto, pode-se concluir que as novas formas de relacionamento e intimidade não são intrinsecamente benéficas ou prejudiciais. O impacto na saúde mental depende da forma como as ferramentas tecnológicas e os modelos relacionais são integrados no quotidiano e na vida afetiva de cada pessoa. Os profissionais de saúde mental, ao compreenderem os mecanismos que sustentam estes vínculos oferecem estratégias adaptativas, desempenhando um papel central na construção de relações mais seguras, satisfatórias e saudáveis na era digital.
Referências Bibliográficas:
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5ª ed., texto rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787
Döring, N., & Poeschl, S. (2019). Experiences with diverse forms of online sexuality: A study on German Internet users’ sexual interactions with media, partners, and new technologies. Journal of Sex Research, 56(2), 237–249. https://doi.org/10.1080/00224499.2018.1497094
Schwartz, B. (2004). The paradox of choice: Why more is less. HarperCollins.
Shapiro, G. K., Tatar, O., Sutton, A., Fisher, W., & Rosberger, Z. (2018). Correlates of Tinder use and risky sexual behaviors in young adults. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 21(7), 451–457. https://doi.org/10.1089/cyber.2017.0708
Vogels, E. A., & Anderson, M. (2020, February 6). Dating and relationships in the digital age. Pew Research Center. https://www.pewresearch.org/internet/2020/02/06/dating-and-relationships-in-the-digital-age
- Estamos a construir relações ou apenas a gerir contactos? - 16/01/2026
- O que não aparece nas fotos de Natal pesa mais do que parece - 02/12/2025
- Conectados por Fora, Desgastados por Dentro - 01/10/2025




