Hipnose não é magia: é neurofisiologia

Ao longo dos anos de prática, enquanto hipnoterapeuta, observo a busca incessante, que o paciente tem por rápidos resultados. E este é, de certo, um objetivo comum do seu terapeuta, afinal, nessa qualidade terapêutica, esse fator faz parte da qualidade oferecida.


Iremos neste pequeno artigo, expor o que significa o estado ideal de transe hipnótico e a sua influência no resultado clínico. Importante referir que irá notar que afinal hipnose interfere no seu cérebro e não na sua “magia”.

Na referência ao tema exposto, é importante notar algumas questões em relação à temática hipnose, na qual os mitos são, ainda, um facto observável. Felizmente em decréscimo, pela natural busca de terapia em clínicas de qualidade e com práticas regulamentadas, com protocolos terapêuticos com provas dadas da sua eficácia, e equipas bem formadas e certificadas academicamente.

Imagine… entrava numa sala de operações. Seria apresentada a toda a equipa, com anestesista e cirurgião. O anestesista tem a função de o colocar em estado anestésico e analgésico adequado para intervenção, e o cirurgião? A esse cabe a prática clínica, objetivo clínico da intervenção. Final da intervenção, você iria assumir que o anestesista teve o papel principal na intervenção? Graças ao anestesista é que me livrei daquela doença que tinha?

Pois bem, e se o anestesista fosse a hipnose, e o terapeuta o cirurgião? De certo iríamos verificar que a hipnose é apenas um estado que possibilita o terapeuta operar de uma forma mais efetiva, sem resistência da mente consciente. A hipnose é um recurso valioso que irá tornar o seu consciente permeável a pensamentos, emoções e sentimentos. Utilizando a metáfora anterior, no procedimento terapêutico com recurso da hipnose, iremos “sedar e anestesiar o seu consciente”. Oferecendo a possibilidade de comunicar diretamente com o seu subconsciente, de forma a introduzir pela sugestão, novas possibilidades de reações e comportamentos, agora ajustados, equilibrados e promissores.

A hipnose é um recurso valioso que irá tornar o seu consciente permeável a pensamentos, emoções e sentimentos.

Colocar o seu consciente em “transe” (termo comum utilizado para se referir a esse estado terapêutico) auxilia libertar as resistências, julgamentos críticos pelo seu consciente. Pode parecer contraditório, o paciente procurar terapia para se libertar de um estado emocional negativo e o seu consciente criar todo um conjunto de justificações negativas, de que “isto não vai dar certo…”. Ao utilizar a hipnose ultrapassamos as barreiras destas impossibilidades.

“Mas eu vou ficar a dormir? E fico inconsciente?”

Na verdade, irá ficar “adormecido”, num sono hipnótico, ou segundo o dicionário, “um estado de sonolência e de turvação da consciência, no qual há uma importante redução do pensamento e da atividade, e que ficam substituídas pela vontade e sugestões do hipnotizador” (infopedia 2019). Ficar inconsciente, será impossível, atendendo que estado mental inconsciente é um estado patológico, de causa física ou química, apenas tratável em hospital. A utilização deste termo, em duplo significado, pode ter levado a este mito, “estar inconsciente, aceder ao inconsciente”. A mesma palavra e dois significados totalmente diferentes, utilizaremos assim a palavra subconsciente.

Sem alongar em demasia, pois não se trata de um artigo de neurofisiologia, o que acontece durante o transe?

Numa consulta é avaliado o seu estado atual, no que se refere a emoções, pensamentos e sentimentos. Em todo o quadro clínico de sinais, sintomas, pensamentos, emoções, sentimentos, comportamentos e reações típicas perante a situação que pretende resolver. Após essa avaliação faz-se o planeamento do seu estado desejado, o que pretende atingir, qual o objetivo clínico. Estando assim negociado terapeuticamente as possibilidades, podemos dar início a uma prática clínica com hipnose.

O que acontece quando estou no cadeirão?

Quando em estado vígil, em discurso com o terapeuta a nível cerebral (tal como o coração) temos ondas elétricas, que definem o nível de consciência presente. Observe a figura abaixo.

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Observando a imagem acima, pode verificar que num estado vigil, está em ondas cerebrais beta, consciente orientado, discurso consciente. Após sentar-se no cadeirão e fechar os olhos, o terapeuta inicia todo o processo de indução terapêutica de hipnose, até atingir um estado de relaxamento físico e mental favorável à terapia. Os estados Alfa e em especial o Theta são os favoráveis à prática terapêutica, estando o paciente consciente e a ouvir o discurso do terapeuta. Durante a terapia poderá ainda mergulhar num estado ainda mais profundo, em ondas Delta, semelhante ao sono, daí os mitos “dormir profundamente” ou “ ficar inconsciente”.

O acesso ao subconsciente faz-se, primordialmente, pelo acesso a estes dois níveis de ondas cerebrais, Alfa e Theta, dependendo da técnica a ser utilizada pelo terapeuta e objetivo clínico.

O nível de transe é que dita a qualidade da terapia?

Recorde a metáfora anterior, o anestesista é que teve o único papel no resultado da intervenção? O nível de profundidade de transe não dita a qualidade da terapia. De referir que nem todas as pessoas conseguem aceder a níveis profundos de transe, principalmente nas primeiras sessões, de qualquer modo, o terapeuta poderá ajudar o paciente a aprender e a permitir-se relaxar e aceder a níveis mais profundos, tudo é um treino contínuo pela prática terapêutica.

A qualidade da terapia, essa verifica-se pelo protocolo com que o terapeuta labora e tece todas as sugestões oferecidas ao paciente. O terapeuta, na utilização de um protocolo clínico, adequado e promissor em resultados, fará o resultado desejável chegar em tempo oportuno. Numa prática clínica em psicoterapia, a utilização de hipnose poderá permitir o acesso ao material contido no subconsciente. Mas só com a aplicação de um protocolo terapêutico validado e experiente, irá poder aceder e ressignificar o problema que apresenta, e esta é uma premissa constante, de resultados promissores.

A qualidade da terapia, essa verifica-se pelo protocolo com que o terapeuta labora e tece todas as sugestões oferecidas ao paciente.

A hipnose por si só não faz terapia, o protocolo que a utiliza como ferramenta é que faz toda a diferença.

Sobre o autor

Dr. Nelson Oliveira

Dr. Nelson Oliveira
Hipnoterapeuta / Life Coach

  • Formado em Terapia Diamante® pela Dra. Rosa Basto
  • Licenciatura em Enfermagem – Escola Superior de Saúde de Santarém
  • Pós-Graduação Enfermagem Forense
  • Pós-Licenciatura de Especialização de Saúde Mental e Psiquiatria
  • Mestrado de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria
  • Pós-Graduação em Hipnose Clínica – Faculdade de Medicina Lisboa

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