O Pai Natal existe, no amor e nas virtudes humanas

O que mais aprecio nesta época do ano é o facto de todos parecerem personagens vivas saídas de um conto. É incrível constatar o poder que uma história pode ter. É de tal forma poderosa que vai ganhando raízes e vida própria, ao ponto de a personificarmos na própria pele! O Coelhinho da Páscoa que me perdoe, é um personagem respeitável, mas não me recordo de ver muitas pessoas na pele de um coelho que dá ovos. Convenhamos porém, que seria até algo estranho, não é? Já de Pai Natal, quantos de nós não vestimos aquela farda vermelha e branca? Ou, pelo menos, o gorro?


Claro que por detrás da história de encantar existe uma realidade dura, fruto da globalização, e milhares de histórias de vida, por exemplo de quem produz os brinquedos, e de como é a vida desses operários. Podíamos ainda descortinar a festa consumista que tem como símbolo o Pai Natal globalizado ou as pessoas que vêem nesta altura do ano, um momento de verdadeira tristeza afetiva. É precisamente por estes temas merecerem a nossa atenção que o que trago hoje é nada mais, nada menos do que o verdadeiro espírito natalício, que é o total oposto deste. Não precisamos de casas repletas de plástico made in a desgraça de alguém, nem de crianças e adultos consumistas que esperam de ego em proa por um presente mais caro que o do ano passado. Nós precisamos de Amor. É nisto que eu acredito. O mundo precisa verdadeiramente de acreditar no poder da dádiva. E isto, meu caro leitor, não são balelas. Por isso, considero importante conhecer o que deu origem a esta figura mítica que traz consigo uma lenda capaz de perpetuar corações preenchidos, como forma de manter o espírito, em vez de o anular por revolta. O resultado de uma história não depende dela mesma, mas sim da forma como é contada. O Pai Natal faz parte do imaginário coletivo. Quem, por uma vez que seja, não vibrou com a chegada daquele velhinho barrigudo que vive no Polo Norte, que visita as criancinhas que se portaram bem durante o ano e coloca um presente na sua meia às doze badaladas de dia 24 de dezembro?

São Nicolau, sempre prestável

Todos se recordam desta história que, mais volta menos volta, foi-nos contada de forma idêntica. Mas o que mal se sabe é de onde surgiu esta lenda. A mim chegou-me a história de São Nicolau, que terá sido Arcebispo de Mira lá para os lados da atual Turquia, por volta do ano IV. E o que lhe vou contar a seguir será conforme ouvi: Reza a lenda que São Nicolau fora filho de cristãos abastados e que desde muito novo se mostrou generoso. Certa vez, Nicolau terá visto o vizinho desesperado, sem dinheiro e a chorar por estar a considerar mandar as filhas para a prostituição. Não conseguia casá-las por não ter dote para oferecer! Perante aquela situação, Nicolau encheu uma bolsa de moedas de ouro e de noite, sem que fosse visto, atirou-a pela janela do vizinho. Terá repetido este feito três vezes, e por isso as três filhas do vizinho casaram de forma digna e com um bom dote, acabando com o problema daquela família. Esta é uma das muitas lendas que descrevem São Nicolau como um homem que cuida dos mais desfavorecidos. Esta imagem imortalizou-se e foi ganhando consistência ao longo do tempo, tornando São Nicolau símbolo de dádiva, amor e fraternidade. Ainda hoje é conhecido por Sinterklaas nos Países Baixos e é na véspera de dia 6 de dezembro (o seu dia), que grande parte da população faz a troca de presentes.

Curiosamente, existem outras referências ao Pai Natal em torno do século XV, mas tal como a figura do Father Christmas, ganhou maior destaque aquando da oposição ao puritanismo durante o século XVII em Inglaterra, devido ao governo inglês que, por estar a ser controlado pelos puritanos, havia legislado abolir o Natal, uma vez que se tratava de uma tradição pagã onde o Pai Natal representava a festa e a alegria. Já nos EUA, mais tarde, parece que as tradições cristãs se cruzaram com as antigas tradições pagãs europeias e deram origem ao Santa Claus. Foi aqui que a minha curiosidade se aguçou e foi por causa do detalhe da história que lhe vou contar a seguir, que decidi escrever este artigo. É do improvável e, muitas vezes do reprovável, que a magia acontece. O facto que atribuiu proeminência ao Pai Natal não foi o que muitos pensam, a marca Coca-Cola em 1930 – é certo que esta o popularizou – mas o mote foi dado por Clement Clarke Moore, um teólogo e hebraico erudito que escreveu o poema A Visit from St. Nicholas para os filhos.

Outra versão da história…

Conta-se que uma senhora chamada Sarah Harriet Butler, durante uma visita à casa de Clement Clarke Moore em Nova Iorque, viu uma versão escrita do poema e copiou-a sem a permissão do autor, enviando-a anonimamente para o Jornal Sentinel, em 1822. Sem autor definido, o texto terá sido publicado, posteriormente, em diversos jornais e revistas, e apesar da sua reivindicação ter sido controversa, Moore viu reconhecida a autoria cerca de duas décadas depois. No famoso poema, Moore cunhou a imagem que hoje temos do Pai Natal, um homem rechonchudo com capacidades de subir chaminés apenas com um pequeno aceno de cabeça e que cruza os céus guiado por renas voadoras. [Para o leitor mais curioso, deixo no final deste texto o local onde pode ler o poema na versão original]. Em 1866, o cartunista Thomas Nast, inspirado no poema de Moore, deu vida ao personagem, atribuindo o vermelho à famosa farda do Pai Natal e imortalizou-o até aos dias de hoje, tendo passado por alterações na imagem, sendo as mais significativas protagonizadas pelo australiano Frank A. Nankivell, em 1902, e Norman Rocwell, em 1920, que trouxe para a luz um Pai Natal mais realista do que as versões anteriores. E assim se constrói uma lenda, lenda atrás de lenda. É como se costuma dizer: “Quem conta um conto…”

Nos dias de hoje está na moda negar as histórias originais, mudando-lhes o fim, suprimindo pormenores e atribuindo-lhe um fast and clean look. Mas as histórias são mesmo de natureza crua e é na crueza da vida que ganhamos habilidades para lidarmos com ela. Hoje há quem defenda que a lenda do Pai Natal não deve ser contada às crianças por incrementar a mentira, mas há também quem defenda o oposto. Como diz Fernanda Viana, especialista em Psicologia da Educação e professora na Universidade do Minho: “Mesmo quando já sabem que não é o Pai Natal que dá os presentes, muitas crianças continuam a achar que a magia do Pai Natal está presente. Algumas até lhe continuam a escrever cartas. E isso não traz mal nenhum ao mundo. Falar do Pai Natal não é mentir às crianças. É entrar com elas pela via do imaginário coletivo”, in DN, 2016. Creio que viver a lenda do Pai Natal em determinada fase da vida é muito enriquecedor, permite a desenvoltura da criatividade e apura valores, como bondade, curiosidade, altruísmo, amizade e muitos outros. A mim, particularmente, não me fez mal nenhum, até ver! Quando descobri junto das minhas primas que o Pai Natal não existia houve desilusão, claro, mas também houve orgulho em mim, pois certa vez já havia desconfiado das demasiadas semelhanças entre o Pai Natal e a minha madrinha. Quando descobri fiquei feliz por estar certa. Desafiou o meu sentido crítico e, vendo bem, para quem me conhece talvez este tenha sido o início da Ana sempre pronta para ouvir uma boa história!

Entre a chuva de flocos de neve, para si um Feliz e Santo Natal!

Pode ler o poema aqui: https://www.nyhistory.org/exhibit/visit-st-nicholas

Sobre o autor

Dra. Ana Basto

Dra. Ana Basto
Directora Executiva Clinica Dra. Rosa Basto
Hipnoterapeuta pelo método Terapia Diamante®
Formadora em Storytelling e Contoterapia
Licenciada em Gestão e Administração de Marketing


Comentários

Share this post